Um Retrato Que Já Não É o Que Era
Durante anos, a imagem do apostador português era um cliché: homem, meia-idade, adepto de futebol, frequentador de tabacarias com terminais de apostas. Essa imagem está desactualizada há pelo menos cinco anos. Os dados do SRIJ para 2025 mostram um retrato completamente diferente – mais jovem, mais digital, mais diverso do que a maioria das pessoas imagina. É esse retrato tem implicações práticas para quem aposta e para quem desenha produtos neste mercado.
O mercado português de jogo online conta com cerca de 1,23 milhões de apostadores activos e um total de 5 milhões de contas registadas. A discrepância entre estes dois números já diz algo importante: a maioria das pessoas que se registou num operador não aposta de forma regular. Muitos registaram-se para testar, usar um bónus, ou simplesmente por curiosidade. O apostador activo – aquele que aposta pelo menos uma vez por mês – e uma fracção do total.
Idade, Género e Região – O Que Dizem os Dados SRIJ
Os números são inequívocos: 77,8% dos jogadores online em Portugal tem menos de 45 anos. A faixa dos 25 aos 34 anos e a mais representada, com cerca de 33,5% do total. Logo abaixo, os jovens entre os 18 e os 24 anos representam 32,5% – e são os mais activos no digital, concentrando mais de 60% da actividade nas plataformas.
O que isto me diz, depois de anos a observar este mercado, e que as apostas online em Portugal são um fenómeno geracional. Não nasceu nas tabacarias – nasceu nos smartphones. A geracao que cresceu com internet móvel, aplicações e pagamentos digitais e a mesma que domina o mercado de apostas. E os operadores que não adaptarem os seus produtos a este perfil estão a perder a corrida.
Pedro Hubert, director do Instituto de Apoio ao Jogador, tem soado o alarme sobre o rejuvenescimento do perfil de risco: a idade média de quem procura ajuda já não é 30 anos, mas sim 20, 22, 23. O acesso fácil, a gamificação das plataformas e a presença constante de publicidade em redes sociais criam um ambiente em que a fronteira entre entretenimento e problema pode ser ultrapassada sem que o jovem apostador se aperceba.
Em termos geográficos, a concentração e previsível: Lisboa e Porto somam mais de 42% dos registos. Braga, Setubal e Aveiro acrescentam 24,2%. O interior do país tem uma representação significativamente menor, o que pode reflectir tanto diferenças demográficas como de acesso digital. Para os operadores, isto significa que as campanhas de aquisição estão naturalmente concentradas no litoral urbano – mas também que existe um mercado por explorar no interior, a medida que a penetração digital aumenta.
Futebol Domina – Mas Não E o Único
Se há um número que define o apostador português, e este: 71,2% do volume total de apostas desportivas no primeiro trimestre de 2025 foi em futebol. Não é uma surpresa num país onde o futebol é mais do que um desporto – é uma linguagem cultural. Mas seria um erro pensar que os apostadores portugueses só se interessam pela bola.
O ténis ocupa um sólido segundo lugar, com 16% a 22% do volume dependendo do trimestre e da disponibilidade de grandes torneios. O Open da Australia, Roland Garros, Wimbledon e o US Open geram picos de apostas que, em termos proporcionais, rivalizam com as jornadas da Liga Portugal. O ténis e um desporto particularmente adaptado as apostas ao vivo, com pontuação contínua e mercados que mudam a cada ponto, o que atrai apostadores que procuram acção constante.
O basquetebol é o terceiro grande mercado, impulsionado quase exclusivamente pela NBA. No primeiro trimestre de 2025, a NBA representou 58,6% do total de apostas em basquetebol – um número que reflecte a influência cultural americana em Portugal e o facto de os jogos da NBA decorrerem ao final da noite, quando os apostadores portugueses tem mais disponibilidade. As ligas europeias de basquetebol – EuroLeague, Liga portuguesa – representam uma fracção do volume, mas estão em crescimento.
O que falta neste perfil e a diversificação por desporto. Modalidades como andebol, futsal, ciclismo e desportos motorizados tem uma presença residual no volume de apostas, apesar de existirem mercados disponíveis na maioria dos operadores. A explicação é simples: os apostadores tendem a apostar no que conhecem, e em Portugal, o conhecimento desportivo e dominado pelo futebol.
O Peso dos Apostadores Estrangeiros em Portugal
Este e um dado que praticamente ninguém discute nos guias de apostas, mas que é fascinante: os jogadores de nacionalidade brasileira representam entre 48,5% e 49,3% do total de estrangeiros registados em operadores licenciados em Portugal ao longo de 2025. Quase metade dos estrangeiros que apostam legalmente em Portugal são brasileiros.
A explicação cruza dados de imigração com hábitos de consumo digital. A comunidade brasileira em Portugal cresceu exponencialmente nos últimos anos, e trouxe consigo uma cultura de apostas desportivas que, no Brasil, se desenvolveu de forma explosiva com a regulamentação recente do mercado. Muitos brasileiros residentes em Portugal já tinham experiência com plataformas de apostas antes de chegarem, e a transição para os operadores licenciados pelo SRIJ foi natural.
Para os operadores portugueses, este segmento representa uma oportunidade e um desafio. A oportunidade é óbvia: um grupo demográfico grande, activo e familiarizado com apostas. O desafio e cultural: o português do Brasil e o português de Portugal são a mesma língua com diferenças significativas de registo e vocabulário, e os operadores que não adaptam a comunicação arriscam-se a perder relevância junto deste público.
O perfil do apostador português não é estático. Muda com a demografia, com a tecnologia e com a regulamentação. Conhece-lo não te da vantagem nas odds – mas da-te contexto. E o contexto, neste mercado, e o que separa o apostador informado do apostador que aposta as cegas.
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