Omnipresença Publicitária - Do Instagram ao Estádio

Abres o Instagram e la está: um influencer com 200 mil seguidores a promover um operador de apostas com um código promocional exclusivo. Ligas a televisão e o intervalo tem três anúncios de casas de apostas. Vas ver um jogo ao estádio e o nome do operador está na camisola da equipa, nas placas publicitárias e até nas escadas de acesso. A publicidade de apostas em Portugal e omnipresente - e é exactamente por isso que se tornou um dos debates mais acesos no sector.

A origem do problema está nos números: 36,8% dos jogadores que apostam em plataformas ilegais chegaram la atraves de redes sociais, e 42,1% por recomendação de amigos. A publicidade, neste contexto, não é apenas uma questão comercial - e uma questão de saúde pública e de protecção do consumidor. E em 2026, o debate parlamentar sobre restrições está mais activo do que nunca.

O Que Diz a Lei Sobre a Publicidade de Apostas

A Lei 76/2013, que regulamenta o jogo online em Portugal, inclui disposições sobre publicidade que são, na prática, bastante gerais. Os operadores licenciados pelo SRIJ podem fazer publicidade aos seus serviços, desde que respeitem regras basicas: não direccionar comunicação a menores, incluir mensagens de jogo responsável, não prometer ganhos garantidos, e identificar claramente o operador como licenciado.

Na prática, a fiscalização destas regras tem sido desigual. Os anúncios na televisão e nos média tradicionais são relativamente fáceis de monitorizar e, regra geral, cumprem os requisitos legais. A publicidade digital - redes sociais, banners online, emails - opera numa zona de menor supervisão, onde as infracções são mais difíceis de detectar e de sancionar.

O SRIJ tem competência para sancionar operadores licenciados que violem as regras de publicidade, mas o seu alcance não se estende facilmente aos operadores ilegais que fazem publicidade em plataformas globais. E aqui reside um paradoxo importante: as restrições a publicidade afectam primariamente os operadores legais, enquanto os ilegais - que são responsáveis por captar 40% dos jogadores - operam sem qualquer restrição.

O enquadramento actual também não aborda de forma específica o patrocínio desportivo, que é uma das formas mais visíveis de publicidade de apostas em Portugal. Os nomes de operadores em camisolas de clubes da Liga Portugal, em estádios e em transmissões televisivas são uma presença constante que normaliza a associação entre desporto e apostas. Em países como a Itália e a Espanha, o patrocínio de equipas por operadores de apostas foi total ou parcialmente proibido - um caminho que Portugal ainda não seguiu, mas que está em discussão.

Influencers e Redes Sociais - O Ponto Mais Controverso

Se há um tema que polariza opiniões neste sector, e a publicidade de apostas por influencers. O modelo é simples: o operador paga ao influencer para que promova a plataforma junto da sua audiência, tipicamente atraves de códigos promocionais com bónus exclusivos. O público-alvo e quase sempre jovem - exactamente a demografia que mais aposta online em Portugal, com 32,5% na faixa dos 18 aos 24 anos.

Os dados do estudo AXIMAGE/APAJO mostram que as redes sociais são a segunda principal via de acesso a operadores ilegais (36,8%), atrás apenas das recomendações pessoais. O que isto significa é que a publicidade em redes sociais - legal ou ilegal - tem um impacto real no comportamento dos jogadores. E quando um influencer promove um operador sem licença sem que a sua audiência saiba distingui-lo de um operador legal, o dano potencial e enorme.

Pedro Hubert, director do Instituto de Apoio ao Jogador, foi claro na sua audiência na Comissão Parlamentar: está plenamente de acordo quanto a regulação e a limitação, mas sempre evitar a proibição. O que o preocupa mais que tudo é a publicidade nas redes sociais, no jogo online, pelos ditos influencers. É uma posição equilibrada que reconhece a realidade do mercado sem cair em solucionismo.

O problema específico com influencers não é a publicidade em si - e a falta de transparência. Muitos posts promocionais não identificam claramente a parceria comercial, não incluem mensagens de jogo responsável e não verificam se o operador promovido e licenciado em Portugal. Para um seguidor de 19 anos que ve o seu influencer favorito a usar um código promocional, a distinção entre operador legal e ilegal é invisível.

O Debate Parlamentar e Possíveis Restrições

Em 2025 e 2026, a publicidade de apostas tornou-se um tema recorrente na Assembleia da República. Vários partidos apresentaram propostas que vao desde a restrição de horários de emissao televisiva até a proibição total de publicidade por influencers. O debate está longe de estar encerrado, e o resultado vai afectar directamente a forma como os operadores comunicam com os potenciais clientes.

Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem argumentado que a publicidade é a única verdadeira vantagem que os operadores licenciados tem sobre os ilegais. É a única forma de o consumidor português distinguir entre o licenciado e o não licenciado, o seguro e o inseguro. O argumento é forte: se restringes a publicidade dos operadores legais, reduz-se a visibilidade das alternativas seguras, e os jogadores migram para onde há visibilidade - que e, cada vez mais, o mercado ilegal promovido sem restrições nas redes sociais.

A solução mais equilibrada que tenho visto discutida envolve três pilares: regulamentação específica para publicidade digital (incluindo influencers), reforço da fiscalização contra publicidade de operadores ilegais, e obrigatoriedade de formação para influencers que promovam produtos de jogo. Não é uma solução perfeita, mas reconhece que proibir não elimina a publicidade - apenas a empurra para canais menos controláveis.

Enquanto o debate se desenrola, o apostador português pode fazer a sua parte: verificar sempre se o operador promovido tem licença SRIJ, desconfiar de ofertas que parecem demasiado boas, e lembrar que a melhor publicidade de um operador não é o influencer que o promove - e a qualidade do serviço que oferece.

E permitido fazer publicidade a casas de apostas em Portugal?
Sim, os operadores licenciados pelo SRIJ podem fazer publicidade, desde que cumpram as regras estabelecidas pela Lei 76/2013 e pela regulamentação complementar: não direccionar a menores, incluir mensagens de jogo responsável, não prometer ganhos garantidos, e identificar o operador como licenciado.
Os influencers podem promover operadores de apostas?
Actualmente, não existe proibição específica para a promoção de apostas por influencers, mas o tema está em debate parlamentar. As regras gerais de publicidade aplicam-se, incluindo a obrigatoriedade de mensagens de jogo responsável. A principal preocupação é a falta de transparência na identificação de parcerias comerciais e na distinção entre operadores legais e ilegais.